Ao longo de minha vida desenvolvi, como a maioria dos homens, um certo interesse e talvez até um fascínio por guerras e conflitos em geral, fossem eles reais, como no caso das guerras mundiais, ou fictícios, como os que ocorrem em Star Wars. Embora neste último caso fique evidente quem são os heróis e quem são os vilões, nas guerras em nosso mundo raramente podemos assumir um lado sem correr o risco de estarmos cometendo um erro crasso. Afinal, entre Tríplice Aliança e Tríplice Entente, quem estava com a razão?
Apesar disso, a história do mundo nos mostra que existiram conflitos em que era evidente qual lado era o certo e merecia ser defendido e qual lado era o errado e merecia ser repudiado. Para um católico, ou melhor, para qualquer um dotado de razão — e bom senso —, deve ser impensável tomar o lado dos muçulmanos nas Cruzadas, por exemplo, e isso se dá porque o que estava em jogo não era uma mera questão territorial, não era uma defesa de bens terrenos — por mais que assim digam os materialistas de nossa era, que tudo interpretam com sua lógica torpe —, mas da fé. Lutar pelo reino não era o suficiente: “nous defendróns la Chrétienté“, “nós defenderemos a Cristandade” diz o cântico cruzado Le Roi Louis, do século XIII, atribuindo tais palavras ao próprio rei francês São Luís IX, que lutou ele mesmo nas Cruzadas.
A fé verdadeira também foi defendida em toda a sua integridade — palavra que pode causar ojeriza aos moderninhos, ávidos por agitações e novidades, que macularam e continuam a macular a Santa Religião com práticas alheias não apenas à Tradição, mas ao próprio bom senso — em diversas ocasiões: São Bernardo de Claraval foi um grande pregador e chegou a entrar em algumas polêmicas para defender a Verdade; São Domingos de Gusmão, famoso por ter recebido o Santo Rosário das mãos da Santíssima Virgem Maria, combateu com ele a heresia cátara; São Francisco de Sales escreveu contra o protestantismo, o que pode ser constatado em seu A Controvérsia Católica; São Luís de Montfort, devotíssimo de Nossa Senhora, pregou contra a heresia jansenista que assolava a França; e não esqueçamos da famosa Batalha de Lepanto contra os turcos otomanos, que dispensa apresentações.
Perceba, caro leitor, que em todos os casos citados a oração e a devoção a Nossa Senhora estavam inegavelmente presentes, mesmo em um conflito bélico como o de Lepanto, cuja vitória foi atribuída ao Santo Rosário. É a oração, ninguém há de negar, a alma de todo apostolado, mas também não se pode desconsiderar que em todos os casos — e em tantos outros com que nos brinda a História — há um ardor que impede qualquer tipo de inércia ou conformismo do católico diante dos problemas do mundo. Há uma vontade determinada de “empreender e prosseguir, sem hesitação, grandes coisas” para glória de Deus e para salvação das almas, de “acender em todos a chama do Amor Divino, iluminar os que estão nas trevas e sombras da morte, animar os indecisos e restituir a vida aos mortos no pecado”, como diz o mesmo São Luís de Montfort em seu Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem — e como pedimos os Legionários de Maria em nossas orações habituais.
Com isso em mente, quão grande não pode ser a indignação do católico ao ver que, já há muitos anos, a fé é tratada como uma espécie de adereço que se coloca ocasionalmente e serve de pretexto para a postagem de frases rasas de teor motivacional nas redes sociais. Mesmo os ditos “católicos conservadores”, que costumam ser um pouco mais sérios, não se opõem totalmente às normativas do Mundo, preferindo apenas a defesa de pautas mais conformes a lei natural — mas não todas e não da forma correta — do que a integridade do Reinado Social de Nosso Senhor, que é visto quase como que uma utopia por eles. E enquanto estiverem ocupados conservando a revolução conciliar, que promove o que outrora foi condenado, inclusive bênçãos a pares sodomitas e, mais recentemente, uma grave diminuição da importância de Nossa Senhora, esses católicos jamais poderão ser sal da terra e luz do mundo.
Por outro lado, não posso ignorar a situação na qual se encontram alguns dos “católicos tradicionalistas”, entre os quais estou inserido há alguns anos. Enquanto os mundanos e conservadores são acometidos pelo conformismo, é a 1ª Lei de Newton que impera sobre certos tradicionalistas: inertes, preferem as lamúrias sobre o desastre conciliar do que o combate ativo, se é que se pode ser chamado assim, contra os problemas que vemos por aí. Não se trata de sair em uma cruzada à moda antiga, infligindo danos físicos aos inimigos de Cristo — por mais que algumas ocasiões gerem essa vontade —, mas de realizar um verdadeiro apostolado, agindo com fé viva, esperança firme e caridade ardente e sob uma vida de oração viva e fiel.
Não nos cabe, enquanto católicos, permanecermos em uma inércia que destrói não apenas a nós mesmos, mas tudo a nossa volta. A nós, católicos, cabe o combate contra os conhecidos inimigos do Homem e contra toda sorte de erros que deles derivam. Cabe a nós cravarmos em nossas entranhas as palavras do poeta Gonçalves Dias em sua Canção dos Tamoios: “a vida é luta renhida: viver é lutar. A vida é combate, que os fracos abate”.
Muitos podem argumentar, talvez com certo receio de cair em erros modernos, que não é função de leigos o ensino da sã doutrina, mas em resposta a tamanho absurdo, peço licença para citar um trecho da encíclica Sapientiae Christianae, datada de 1890 e escrita pelo insuspeito Papa Leão XIII, de feliz memória:
[…] quando a necessidade é tanta, já não são somente os prelados que hão de velar pela integridade da fé, uma vez que: ‘cada um tem obrigação de propalar a todos a sua fé, seja para instruir e animar os outros fiéis, seja para reprimir a audácia dos que não o são’. […] nada tanto afoita a audácia dos maus, como a pusilanimidade dos bons.
Tal forma de apostolado, contudo, não se dá não apenas com a formação de grupos com determinado fim, mas com a vivência dos preceitos evangélicos e com a defesa intransigente da verdade, sem omitir ou alterar um só iota da Sã Doutrina também quando for necessário proclamá-la. Devemos seguir não o exemplo de influenciadores digitais ou de padres doutores que parecem passar o dia todo na internet, mas dos santos. Especialmente em tempos tão sombrios, quando a Roma moderna ousa diminuir até mesmo a Corredentora e Medianeira de todas as graças. Devemos combater. Devemos combater os erros que carregamos conosco e os erros que querem que carreguemos.
E por ora, mais não é necessário dizer.
