Encíclica “Testem Benevolentiae”, do Papa Leão XIII

Nota introdutória

É com tremenda reverência que temos a honra de apresentar em nossa modesta publicação a nossa primeira tradução de um documento magisterial. O documento escolhido por nós trata-se da carta encíclica Testem Benevolentiae, escrita pelo Papa Leão XIII em 1899 e endereçada em primeiro lugar ao Cardeal-Arcebispo de Baltimore Dom James Gibbons (1834-1921), e depois circulada aos demais bispos e clero americano.

Movido de preocupação com o crescimento de uma nova heresia fruto do liberalismo e do individualismo moderno que chamou de “americanismo”, o Santo Padre escreveu ao preclaro Cardeal Gibbons — que esteve frente da Sé de Baltimore por quase cinco décadas, sendo o segundo americano criado cardeal e o prelado mais importante da hierarquia católica americana na segunda metade do séc. XIX — a fim de condenar as opiniões que compunham esta heresia, como a valorização da natureza humana em detrimento da graça de Deus, o individualismo e a liberdade de opinião, dentre outras, e repetir enfaticamente a condenação à ideia de que a Igreja deveria se adaptar ao progresso dos tempos, fazendo notar que a verdadeira liberdade é apenas a justa liberdade dos filhos de Deus, cultivada apenas quando há fidelidade à Tradição da Igreja e à autoridade de seu Magistério.

Infelizmente pouco foi ouvido o Vigário de Cristo, e hoje, mais de 125 anos depois, o americanismo segue como uma heresia ainda muito viva, de forma que a encíclica Testem Benevolentiae continua atualíssima para os nossos dias, servindo o Papa Leão XIII como guia de doutrina segura em tempos obscuros e o Magistério da Igreja como eficaz remédio ou vacina contra os males daquela época e também do nosso tempo.

João Medeiros
Editor-chefe


Carta encíclica do Sumo Pontífice Leão XIII sobre as novas opiniões, virtude, natureza e graça com respeito ao americanismo

Ao Nosso querido Filho Cardeal James Gibbons, Cardeal-presbítero de Santa Maria em Trastevere e Arcebispo de Baltimore.

Querido Filho, Saudação e Bênção Apostólica. Nós enviamos por meio desta carta uma renovada expressão daquela boa vontade que não temos deixado de manifestar frequentemente, durante o curso de Nosso Pontificado, a vós, aos vossos colegas no Episcopado e a todo o povo americano, a aproveitar todas as oportunidades que Nos foram oferecidas pelo progresso de vossa Igreja ou pelo que tenham feito pela salvaguarda e promoção dos interesses católicos. Além do mais, Nós frequentemente consideramos e admiramos os nobres dons de vossa nação que permitem o povo americano estar sensível a todo bom trabalho que promove o bem da humanidade e o esplendor da civilização. Entretanto, esta carta não tem a pretensão de, como as precedentes, repetir as palavras de louvor tantas vezes pronunciadas, mas antes chamar a atenção para algumas coisas a serem evitadas e corrigidas; e tendo em vista que esta carta foi concebida no mesmo espírito de caridade apostólica que inspirou todas as Nossas cartas precedentes, devemos esperar que a tomarás como outra prova de Nosso amor; quanto mais porque procuramos suprimir certas disputas que têm surgido ultimamente entre vós em detrimento da paz de muitas almas.

É conhecido por vós, amado Filho, que a biografia de Isaac Thomas Hecker, especialmente através do esforço daqueles que empreenderam sua tradução e publicação em uma língua estrangeira, tem suscitado sérias controvérsias devido a certas opiniões trazidas em consideração sobre o modo de viver cristão.

Nós, portanto, em razão do Nosso ofício apostólico, em dever de preservar a integridade da fé e a segurança dos fiéis, estamos desejosos de escrever-vos em consideração mais extensa e completa sobre este assunto.

O fundamento sobre o qual se baseiam essas novas ideias é que, com o fim de atrair mais facilmente aqueles que dissentem dela, a Igreja deveria adequar seus ensinamentos mais de acordo ao espírito da época, afrouxar algo de sua antiga severidade e fazer algumas concessões a novas opiniões. Muitos pensam que essas concessões devem ser feitas não apenas em matéria de disciplina, mas também nas doutrinas pertencentes ao “Depósito da Fé”. Sustentam que seria oportuno, para ganhar aqueles que divergem de Nós, omitir certos pontos do Magistério da Igreja que são de menor importância, e desta maneira moderá-los, para que não portem o mesmo sentido que a Igreja constantemente lhes têm dado. Não são necessárias muitas palavras, querido Filho, para provar a falsidade dessas ideias se se traz à mente a natureza e a origem da doutrina que a Igreja propõe. O Concílio Vaticano diz a este respeito: “A doutrina da fé que Deus revelou não foi proposta como uma invenção filosófica, para ser aperfeiçoada pelo engenho humano, mas foi entregue como um depósito divino à Esposa de Cristo para ser guardada fielmente e declarada infalivelmente. Logo, o significado dos sagrados dogmas que Nossa Mãe, a Igreja, declarou uma vez deve ser mantido perpetuamente, e nunca se deve afastar desse significado sob a pretensão ou pretexto de uma compreensão mais profunda dos mesmos” (Constitutio de Fide Catholica, cap. IV).

Não podemos considerar como inteiramente inocente o silêncio que intencionalmente conduz à omissão ou ao desprezo de alguns dos princípios da doutrina cristã, já que todos os princípios vêm do mesmo Autor e Mestre, “o Filho Unigênito, que está no seio do Pai.” (Jo. I, 18). Estes estão adaptados a todos os tempos e todas as nações, como se nota claramente pelas palavras de Nosso Senhor a seus Apóstolos: “Ide, pois, ensinai a todas as nações; ensinando-lhes a observar tudo o que lhes mandei, e eis que estou convosco todos os dias, até o fim dos tempos” (Mt. XXVIII, 19). A este respeito diz o Concílio Vaticano: “Devem ser cridas com fé divina e católica tudo aquilo que está contido na Palavra de Deus, escrita ou transmitida, e que a Igreja, ora por solene juízo, ora por seu magistério universal e ordinário, propõe a crer como divinamente reveladas” (Constitutio de Fide Catholica, cap. III).

Longe da mente de qualquer homem a diminuição ou supressão, por qualquer razão, de qualquer doutrina que tenha sido transmitida pela Igreja. Tal política tenderia mais a separar os católicos da Igreja, em vez de atrair aqueles que dela dissentem. Não há nada mais próximo ao Nosso coração do que ter de volta ao rebanho de Cristo aqueles que estão separados dele, mas não por outra via distinta do caminho apontado por Cristo.

A regra de vida estabelecida aos católicos não é de tal natureza que não pode ser acomodada às exigências de diferentes tempos e lugares. Guiada por seu Divino Mestre, a Igreja tem um espírito gentil e misericordioso, razão pela qual desde o início ela tem sido o que São Paulo disse de si mesmo: “Fiz-me tudo para todos, para, por todas as formas, salvar alguns” (1Cor. IX, 22).

A história prova claramente que a Sé Apostólica, à qual foi confiada a missão não só de ensinar, mas também de governar toda a Igreja, permaneceu “em uma mesma doutrina, em um mesmo sentido e em um mesmo julgamento” (Constitutio de Fide Catholica, cap. IV).

Mas, quanto ao modo de viver, ela está tão acostumada a moderar sua disciplina que, mantendo intacto o princípio divino da moralidade, nunca negligenciou em se acomodar ao caráter e gênio das nações que abraça.

Quem pode duvidar que ela agirá novamente com este mesmo espírito se a salvação das almas assim o exigir? Neste assunto, a Igreja deve ser o juiz, e não os indivíduos particulares, que muitas vezes são enganados pela aparência de bem. Nisto, todos os que desejam escapar da condenação de Nosso Predecessor, Pio VI, devem concordar. Ele condenou como injuriosa à Igreja e ao Espírito de Deus que a guia a doutrina contida na Proposição LXXVIII do Sínodo de Pistoia, “que a disciplina criada e aprovada pela Igreja deva ser submetida a exame, como se a Igreja pudesse formular um código de leis inútil ou mais pesado do que a liberdade humana pode suportar”.

Entretanto, Filho amado, no presente assunto de que estamos falando, há ainda um perigo maior, e uma oposição ainda mais manifesta à doutrina e disciplina católicas, naquela opinião dos amantes da novidade segundo a qual afirmam que se deve admitir uma sorte tal de liberdade na Igreja que, diminuindo de alguma maneira sua supervisão e cuidado, se permita aos fiéis seguir mais livremente a liderança de suas próprias mentes e a trilha de suas próprias atividades. Aqueles são da opinião de que tal liberdade tem sua contrapartida na liberdade civil recentemente dada, que é agora o direito e fundamento de quase todo o estado secular.

Discutimos extensivamente este ponto na carta apostólica Immortale Dei sobre a Constituição Cristã dos Estados, endereçada por Nós aos Bispos de toda a Igreja; e ali demos a conhecer a diferença existente entre a Igreja, que é uma sociedade divina, e todas as demais organizações sociais humanas que dependem simplesmente do livre-arbítrio e da escolha dos homens.

É bom, então, dirigir a atenção em particular à opinião que serve de argumento a favor desta maior liberdade procurada para os católicos e recomendada a eles.

Alega-se que agora que foi proclamado o Decreto Vaticano sobre a autoridade magisterial infalível do Romano Pontífice, já não há mais com o que se preocupar nessa linha, e, por conseguinte, desde que isso seja salvaguardado e colocado além de qualquer questionamento, se abre a cada um campo mais amplo e livre, tanto para o pensamento como para a ação. Mas tal raciocínio é evidentemente defeituoso, já que, se temos que chegar a alguma conclusão acerca da autoridade magisterial infalível da Igreja, seria mais ainda de que ninguém deveria desejar afastar-se dessa autoridade, ou ainda, que levadas e dirigidas de tal modo às mentes de todos, gozariam de uma maior segurança de não cair em erro privado. E ademais, aqueles que se permitem assim raciocinar parecem afastar-se seriamente da providente sabedoria do Altíssimo, que se dignou dar a conhecer por soleníssima decisão, a autoridade e o direito supremo de ensinar desde sua Sé Apostólica, e entregou tal decisão precisamente para salvaguardar as mentes dos filhos da Igreja dos perigos dos tempos presentes.

Estes perigos, a saber, a confusão entre licença e liberdade, a paixão por discutir e mostrar desprezo sobre qualquer assunto possível, o suposto direito de manter qualquer opinião que se agrade sobre qualquer assunto, e dar-lhe a conhecer ao mundo por meio de publicações, envolveram tanto as mentes na obscuridade que há agora, mais do que nunca, uma necessidade maior do ofício magisterial da Igreja, a fim de que as pessoas não se esqueçam tanto da consciência como do dever.

Nós certamente não pensamos em rechaçar tudo quanto há produzido a indústria e o estudo moderno. Tão longe estamos disso que damos acolhida ao patrimônio da verdade e ao âmbito cada vez mais amplo do bem-estar público a tudo que ajude ao progresso da aprendizagem e da virtude. Ainda assim, tudo isso só poderá ser de algum sólido benefício, e mais, só poderá ter uma existência e um crescimento real, se se reconhece a sabedoria e a autoridade da Igreja.

Agora, com respeito às conclusões que foram deduzidas das opiniões acima mencionadas, cremos de boa-fé que nelas não houve intenção de erro ou astúcia, mas ainda assim, estes assuntos em si mesmo merecem sem dúvida certo grau de suspeita. Em primeiro lugar, se deixa de lado toda direção externa por ser considerada supérflua e, de fato, inútil para as almas que lutam pela perfeição cristã, sendo seu argumento que o Espírito Santo hoje derrama graças mais ricas e abundantes do que antigamente sobre as almas dos fiéis, de maneira que, sem intervenção humana, Ele os ensina e os guia por certa inspiração oculta. Embora seja sinal de um pequeno excesso de confiança em querer medir e determinar o modo da comunicação divina à humanidade, já que esta depende completamente de seu próprio parecer e Ele é o mais livre dispensador de seus próprios dons — “O Espírito sopra onde quer” (Jo. III, 8), “Mas a cada um de nós foi repartida a graça segundo a medida do dom de Cristo” (Ef. IV, 7). E qualquer um que recorde da história dos Apóstolos, a fé da Igreja nascente, as provações e mortes dos mártires — e, sobretudo daqueles tempos antigos, tão frutíferos nos santos — ousará comparar o nosso tempo com aqueles, ou afirmar que receberam menos da divina torrente do Espírito de Santidade? Para não insistir neste ponto, não há ninguém que questione a verdade de que o Espírito Santo opera por uma misteriosa descida nas almas dos justos e que Ele os estimula igualmente por avisos e impulsos, visto que, a menos que seja esse o caso, toda a defesa e autoridade externa seriam ineficazes. “Pois se alguém está persuadido de que pode assentir com a verdade salvífica, isto é, a verdade do Evangelho, quando esta é proclamada, sem a iluminação do Espírito Santo, que dá a todos doçura e suavidade tanto para assentir como para perseverar, tal pessoa é enganada por um espírito herético” (Segundo Concílio de Orange, cânon 7).

Além disso, como mostra a experiência, essas moções e impulsos do Espírito Santo são com mais frequência experimentados por meio da ajuda e da luz de uma autoridade magisterial externa. Para citar Santo Agostinho: “Ele [o Espírito Santo] coopera com os frutos colhidos das boas árvores, visto que externamente rega e cultiva-os pelo ministério externo dos homens, e ainda por si mesmo concede-os o crescimento interno” (De Gratia Christi, cap. XIX). Certamente pertence à lei ordinária da amorosa providência de Deus que, como Ele decretou que os homens em sua maioria serão salvos pelo ministério também dos homens, Ele também desejou que aqueles a quem chama para os planos superiores de santidade sejam conduzidos por homens; e é por isso que São João Crisóstomo declara que “somos ensinados por Deus através da instrumentalidade dos homens” (Homilia I, In Inscrib. Altar). Disto, um exemplo notável nos é dado nos primeiros dias da Igreja. Pois embora Saulo, empenhado entre sangue e matança, tivesse ouvido a própria voz de Nosso Senhor e perguntado: “Senhor, que queres que eu faça?”, foi-lhe dito para entrar em Damasco e procurar Ananias. “Levanta-te, entra na cidade, e aí te será dito o que deves fazer” (At. IX, 6).

Também não podemos deixar de considerar o fato de que aqueles que buscam a perfeição, visto que, por esse fato, não percorrem um caminho batido ou conhecido, são os mais propensos a se desviar e, portanto, têm maior necessidade do que outros de um professor e guia. Este guia sempre foi obtido na Igreja; tem sido o ensino universal daqueles que ao longo dos tempos foram eminentes por sabedoria e santidade — e, portanto, rejeitá-lo seria comprometer-se a uma crença ao mesmo tempo precipitada, imprudente e perigosa.

Uma consideração minuciosa deste ponto, na suposição de que nenhum guia exterior é concedido a tais almas, nos fará ver a dificuldade de localizar ou determinar a direção e aplicação daquele influxo mais abundante do Espírito Santo tão exaltado pelos inovadores. Para praticar a virtude é absolutamente necessária a assistência do Espírito Santo, mas encontramos aqueles adeptos das novidades dando uma importância injustificada às virtudes naturais, como se elas respondessem melhor aos costumes e necessidades da época, e que tendo estas como seu traje o homem se tornasse mais prontificado para agir e mais vigoroso na ação. Não é fácil compreender como as pessoas possuidoras da sabedoria cristã podem preferir virtudes naturais às sobrenaturais, ou atribuir àquelas uma maior eficácia e fecundidade que a estas. Poderia ser que a natureza unida à graça é mais fraca do que quando deixada por si mesma? Será que aqueles homens ilustres famosos por sua santidade, a quem a Igreja distingue e abertamente homenageia, eram deficientes que careciam de talentos na ordem da natureza por que se destacaram na fortaleza cristã? E embora seja bom maravilhar-se momentaneamente diante de atos dignos de admiração que resultaram da virtude natural, quantos são realmente fortes no hábito das virtudes naturais? Há alguém cuja alma não foi provada, e não em pequeno grau? No entanto, seja para dominar como para preservar em sua integridade a lei de ordem natural, se requer uma ajuda do alto. Esses notáveis atos singulares aos quais temos frequentemente aludido, após uma investigação mais detalhada, muitas vezes mostram mais uma aparência do que a realidade da virtude. Mesmo concedendo que seja virtude, a menos que “corramos em vão” e não nos importemos com aquela bem-aventurança eterna a que Deus em sua bondade e misericórdia nos destinou, de que nos valem as virtudes naturais se não forem secundadas pelo dom da graça divina? Por isso, Santo Agostinho diz bem: “Maravilhosa é a força, e veloz o curso, mas fora do verdadeiro caminho”. Pois assim como a natureza do homem, devido à queda primordial, é inclinada ao mal e à desonra, ainda pelo auxílio da graça é elevada, renovada com uma nova força e grandeza; assim também a virtude, que não é a produto da natureza somente, mas também da graça, torna-se fecunda para a vida eterna e assume um caráter mais forte e duradouro.

Essa superestimação da virtude natural encontra uma forma de ser expressada ao assumir uma divisão de todas as virtudes em ativas e passivas, afirmando-se que, enquanto as virtudes passivas encontraram um lugar melhor no passado, nossa época deve ser caracterizada pelas ativas. É evidente que tal divisão e distinção não podem ser mantidas — pois não há, nem pode haver, uma virtude meramente passiva. “Virtude — diz Santo Tomás de Aquino — designa a perfeição de alguma potência, mas o fim dessa potência é um ato, e um ato de virtude nada mais é do que o bom uso do livre-arbítrio”; agir, isto é, sob a graça de Deus se o ato for de uma virtude sobrenatural.

Só Ele poderia desejar que algumas virtudes cristãs fossem adaptadas a certos tempos e outras a outros tempos que não recordam das palavras do Apóstolo: “Os que ele distinguiu de antemão, também os predestinou para serem conformes à imagem de Seu Filho.” (Rom. VIII, 29). Cristo é o mestre e o exemplo de toda santidade, e ao Seu padrão devem conformar-se todos aqueles que aspiram à vida eterna. Cristo não conhece mudança alguma com o passar das eras, “Jesus Cristo é sempre o mesmo: ontem, hoje e por toda a eternidade.” (Heb. XIII, 8). Aos homens de todas as épocas foi dado o preceito: “recebei minha doutrina, porque eu sou manso e humilde de coração” (Mt. XI, 29). Para todas as épocas, Ele tem se manifestado como obediente até a morte (Fil. II, 8); em cada época, o ditado do Apóstolo tem sua força: “os que são de Jesus Cristo crucificaram a carne, com as paixões e concupiscências” (Gal. V, 24). Desejaria Deus que hoje em dia mais se praticassem essas virtudes no grau dos santos dos tempos de outrora, que em humildade, obediência e autodomínio eram poderosos “em palavra e em ação” — para grande vantagem não só da religião, mas do Estado e do bem-estar público.

Diante deste menosprezo das virtudes evangélicas, erroneamente classificadas como passivas, faltava um curto passo para se alcançar um desprezo pela vida religiosa que em certo grau tomou conta de algumas mentes. Que tal valor é geralmente sustentado pelos defensores das novidades, inferimos de certas declarações a respeito dos votos professados pelas ordens religiosas. Eles dizem que estes votos são estranhos ao espírito de nossa época, pois estreitam as fronteiras da liberdade humana; que são mais adequados para mentes débeis do que fortes; que, longe de contribuir para a perfeição humana e o bem da organização humana, são prejudiciais a ambos; mas que essas declarações são falsas é evidenciado a partir da prática e da doutrina da Igreja, visto que ela sempre deu a mais alta aprovação ao modo de vida religioso; e não sem justa causa, porque aqueles que sob o chamado divino abraçaram livremente aquele estado de vida e não se contentaram com a observância dos preceitos, mas, indo aos conselhos evangélicos, mostraram-se prontos e valentes soldados de Cristo. Devemos julgar que isso é uma característica de mentes fracas ou devemos dizer que é inútil ou prejudicial para um estado de vida mais perfeito?

Aqueles que assim comprometem suas vidas com a profissão dos votos religiosos, longe de terem sofrido uma perda ou diminuição de sua liberdade, desfrutam daquela liberdade mais plena e mais livre, aquela liberdade, a saber, pela qual Cristo nos tornou livres (Gal. IV, 31). E esta outra visão deles, a saber, que a vida religiosa é totalmente inútil ou de pouco serviço à Igreja, além de ser prejudicial para as ordens religiosas, não pode ser a opinião de quem leu os anais da Igreja. Acaso vosso país, os Estados Unidos, não deve tanto os primórdios de sua fé e quanto de sua cultura aos filhos dessas famílias religiosas? A um dos quais, muito recentemente, em ato mui digno de louvor, haveis decretado que uma estátua lhe fosse erigida publicamente. E mesmo hoje em dia, onde quer que se encontrem as famílias religiosas, quão rápida e ao mesmo tempo quão frutuosa a colheita de boas obras que trazem consigo! Quantos saem de suas casas e procuram terras estranhas para comunicar a verdade do Evangelho e expandir os limites da civilização; e isso eles fazem com a maior alegria em meio a múltiplos perigos! Dentre eles, não menos certamente do que do resto do clero, o mundo cristão encontra os pregadores da Palavra de Deus, os diretores das consciências, os professores da juventude e a própria Igreja os exemplos de toda a santidade.

Também não se deve fazer nenhuma diferença de dignidade entre quem segue um estado de vida ativo e quem, encantado pela solidão, entrega-se à oração e à mortificação corporal. E de fato, quão bom reconhecimento estes têm merecido, e merecem, certamente é conhecido por todos os que não se esquecem que a “oração contínua do homem justo” serve para aplacar a ira e trazer as bênçãos do céu quando para tais orações a mortificação corporal é adicionada.

Mas se houver aqueles que preferem formar um corpo sem a obrigação de votos, que sigam tal curso. Não é novo na Igreja, nem de forma alguma censurável. Que tenham cuidado, entretanto, para não expor tal estado acima daquele das ordens religiosas. Mas, ao invés, visto que a humanidade está mais disposta a se entregar aos prazeres, que sejam tidos em maior estima “aqueles que deixaram todas as coisas para trás e seguiram a Cristo”.

Finalmente, para não nos prolongarmos mais, é afirmado que o caminho e método que até agora foi seguido entre os católicos para atrair de novo aqueles que saíram da Igreja deve ser deixado de lado e outro deve ser eleito para seu lugar. Sobre este assunto, bastará evidenciar que não é prudente desprezar aquilo que a antiguidade em sua larga experiência aprovou e que também é ensinado pela autoridade apostólica. As Escrituras nos ensinam (Eclo. XVII, 4) que é dever de todos a solicitude para a salvação de nosso próximo segundo a possibilidade e posição de cada um. Os fiéis realizam isso pelo religioso cumprimento dos deveres de seu estado de vida, pela retidão de sua conduta, por suas obras de caridade cristã, e por sua sincera e contínua oração a Deus.

Por outro lado, aqueles que pertencem ao clero devem realizar isso pelo instruído cumprimento de seu ministério da pregação, pela pompa e esplendor das cerimônias, especialmente dando a conhecer com suas próprias vidas a beleza da doutrina que inculcou São Paulo a Tito e Timóteo.

Mas se, em meio às diferentes maneiras de pregar a Palavra de Deus, alguma vez há de se preferir dirigir-se aos não católicos, não nas igrejas, mas em algum lugar adequado, sem buscar polêmicas, mas a conversa amigável, esse método certamente não tem problemas. Mas deixai que aqueles que empreendem tal ministério sejam escolhidos pela autoridade dos bispos, e sejam homens cuja ciência e virtudes tenham sido previamente provadas. Pensamos que há muitos em vosso país que estão separados da verdade católica mais por ignorância que por má vontade, que poderiam ser mais facilmente conduzidos ao único rebanho de Cristo se a verdade lhes for passada adiante de maneira amigável e familiar.

Dito tudo isso, é manifesto, querido Filho, que não somos capazes de aprovar aquelas opiniões que, em seu sentido coletivo, são chamadas pelo nome de “americanismo”. Mas se por este nome se entende o conjunto de talentos espirituais que pertencem ao povo americano, bem como outras características pertencem a outras nações diversas, e se, além disso, por ele designar sua condição política e as leis e costumes pelos quais vocês são governados, não há razão para rejeitar este nome. Mas se por ele se entende que as doutrinas que foram acima mencionadas não são apenas indicadas, mas exaltadas, não poderia haver nenhuma dúvida de que Nossos Veneráveis Irmãos, os Bispos da América, seriam os primeiros a repudiá-lo e condená-lo como algo sumamente injurioso para eles próprios e para o seu país. Pois isso levantaria a suspeita de que há entre vós alguns que concebem e querem que a Igreja na América seja diferente daquela que está nas demais regiões do mundo.

Mas a verdadeira Igreja é una, tanto por sua unidade de doutrina como por sua unidade de governo, e é também católica. E desde que Deus estabeleceu o centro e fundamento da unidade na Cátedra do Bem-aventurado Pedro, com razão se chama Igreja Romana, porque “onde está Pedro, ali está a Igreja” (Ambrósio, In Ps. IX, 57). Portanto, se alguém deseja ser considerado um verdadeiro católico, deve ser capaz de dizer de coração as mesmas palavras que Jerônimo dirigiu ao Papa Dâmaso: “Eu, não seguindo nada senão Cristo, estou unido em amizade a Sua Santidade; isto é, à Cátedra de Pedro. Sei que a Igreja foi construída sobre ela como sua rocha e que quem não recolhe convosco, espalha”.

Estas instruções vos damos, querido Filho, no cumprimento de Nosso dever e em vista de vosso alto ofício, em uma carta especial; cuidaremos para fazer com que sejam enviadas cópias aos Bispos dos Estados Unidos, assim, uma vez mais testemunhando o amor pelo qual abraçamos todo o seu país, país que no passado tanto fez pela causa da religião, e que irá, com a ajuda de Deus, continuar a fazer coisas ainda maiores.

A vós e a todos os fiéis da América, concedemos com grande amor, como penhor da assistência divina, a Nossa Bênção Apostólica.

Dado em Roma, junto de São Pedro, aos 22 de janeiro de 1899, vigésimo primeiro ano do Nosso Pontificado.

LEÃO PP. XIII

Tradução: João Medeiros e Danilo Rehem.

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