Resolver algum problema fora de casa, participar de um almoço em família ou até, pasmem, conversar com alguém da própria paróquia, pode acarretar em um contínuo espanto no cidadão que ainda preserva alguma sensatez e tem uma boa moral, com a trágica realidade vivida por uma parte considerável da sociedade em que vivemos: famílias sem filhos, divórcios a rodo, inúmeros casais vivendo apenas em “união estável” — sem as bênçãos de Deus, mas com o regozijo dos demônios —, e um aumento exorbitante do número de uniões entre pessoas do mesmo sexo.
Para os mais indiferentes e apáticos, tais apontamentos podem soar apenas como sendo frutos da percepção pessoal de um crítico ranheta, mas os dados do Censo de 2022, divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) no último dia 5 de novembro, provam que o declínio moral e familiar do nosso povo é real e vem escalando ano após ano. Antes de prosseguir, vejamos alguns dados do Censo:
- No ano 2000, 56% das famílias do Brasil eram compostas por casais com filhos; a porcentagem caiu para 49,4% em 2010 e, em 2022, para 42%. Enquanto isso, o número de casais sem filhos saiu de 10%, em 2000, para 17,7% e 24,1% em 2010 e 2022, respectivamente;
- Uniões consensuais, isto é, que não tiveram um casamento religioso ou civil, passaram de 28,6%, em 2000, para 36,4% e 38,9% em 2010 e 2022, respectivamente. Enquanto isso, houve uma queda no número de matrimônios religiosos e civis: de 49,4% em 2000 para 42,9% em 2010 e 37,9% em 2022, significando que, no último Censo, o número de uniões sem qualquer tipo de formalização já ultrapassou o de casamentos. E não nos iludamos, caro leitor, pois do número total de uniões sem matrimônio, os católicos são responsáveis por 40,9%: uma vergonha!;
- Entre o ano 2000 e 2022, o número de pessoas que deixaram alguma forma de união conjugal, ou seja, que se divorciaram, passou de 11,9% para 18,6%;
- Das mais de 13 milhões de uniões conjugais existentes no Brasil, 34.202 envolvem menores de idade entre 10 e 14 anos. Deste número, cerca de 87% vive apenas em união consensual, sem ter passado por um casamento religioso ou civil. É algo não apenas imoral, dado o envolvimento de crianças e adolescentes, como ilegal, já que a legislação brasileira proíbe o casamento civil com menores de 16 anos;
- Por fim, o censo também nos revelou que o número de uniões entre pessoas do mesmo sexo saiu de 58 mil, em 2010, para 480 mil, em 2022.
É necessário fazer uma observação importante: as respostas registradas pelo IBGE dependem da percepção das pessoas que as declaram, o que significa que uma pessoa pode ver uma relação como um namoro, enquanto outra pode ver como uma união consensual — e o fato de haver esse tipo de confusão apenas serve para demonstrar ainda mais a reinante falta de boa moral.
Diante das estatísticas apresentadas, podemos nos perguntar como nosso país, chamado no passado de Terra de Santa Cruz, chegou a tamanha barbárie, abraçando os pecados de fornicação, divórcio e sodomia como coisas perfeitamente aceitáveis. Deixando de lado questões históricas — que certamente lançam luzes para explicar a situação atual —, é seguro dizer que muito do que vemos é corroborado pelo Estado, que favorece mais aqueles que não oficializam uniões de qualquer tipo, visto que o matrimônio civil ou religioso acaba sendo apenas “burocracia” — para um mundano; que facilitou a prática do divórcio, o que torna os relacionamentos cada vez menos sérios, já que qualquer problema (como a falta de sentimento, por exemplo) já pode ser motivo para uma separação; e que promove toda espécie de baixeza como sinônimo de cultura e identidade de determinados grupos sociais.
As autoridades eclesiásticas, que Deus tenha misericórdia, também possuem sua parcela de culpa, pois quando não se omitem diante das almas correndo para a perdição eterna, preferindo falar de uma “conversão ecológica”, promovem abominações que culminam na aceitação do estado de pecado, como as pastorais da “segunda união”, as críticas aos casais católicos que simplesmente seguem a moral católica e estão abertos a possibilidade de ter muitos filhos (alguém ainda lembra do Papa Francisco dizendo para que não fôssemos como coelhos, em nome de uma suposta paternidade responsável?); além, é claro, dos documentos que oficializam sacrilégios, como a comunhão para os “recasados” na exortação Amoris Laetitia e a bênção a pares do mesmo sexo na declaração Fiducia Supplicans.
Para reforçar ainda mais o que digo, e para que vejamos como as autoridades pretendem não combater o pecado, mas ajudar o pecador a continuar sendo um pecador — e obstinado em seu pecado —, cito a mais recente desgraça servida a sangue frio pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB): a designação do bispo de Jundiaí (SP), Dom Arnaldo Carvalheiro Neto, para o acompanhamento da Pastoral LGBT+. A iniciativa contou com os aplausos da Rede Nacional de Grupos Católicos LGBT+, que já falou em uma mudança na Igreja no Brasil e talvez até no mundo. Negar a si mesmo, aparentemente, já ficou datado, fora de moda, sendo apenas mais um ensinamento antiquado do Verbo Encarnado. Quanto à CNBB, valeria citar algo de sua declaração, não fosse ela uma remixagem de outros discursos enfadonhos sobre a loucura sinodal. É tão patética quanto qualquer nota institucional de uma instituição ateia.
Mas façamos também nós, caro leitor, um mea-culpa, porque a situação tornou-se mais grave devido aos católicos de todos os cantos do país não agirmos como verdadeiros filhos de Deus e de Nossa Senhora: uma quantidade bastante considerável dos que aderem às práticas elencadas anteriormente são católicos, quando não a maioria. Decerto a maioria professa a fé apenas como quem diz pra qual time torce — se bem que é muito mais fácil defender o próprio time do que a própria fé, já que “religião não se discute”. Não há convicção, conhecimento de doutrina ou intenção de um viver sério. Vai-se, quando muito, às missas dominicais, onde se escuta o padre criticando algum mau hábito como o alcoolismo enquanto os paroquianos estão pensando e vivendo como liberais e libertinos em toda linha, sincretizando em terreiros de umbanda, consultando horóscopos, adotando cães como filhos e até defendendo que a Virgem Santíssima não deve ser chamada de Corredentora.
De forma geral, o estado atual das coisas também é fruto de um apego desordenado a si mesmo e de uma negação das verdades conhecidas: é preferível o individualismo; é preferível seguir uma opinião própria, confortável e que tem teorias espúrias como base, em vez de seguir a Verdade, o que exige mudança de vida e entendimento do funcionamento da realidade. Eu mesmo já me encontrei numa situação onde citei Santo Tomás de Aquino, o Doutor Comum da Igreja, apenas para receber como resposta um “eu acho que não” do interlocutor.
Para além do exemplo pessoal, é possível atestar esse apego a ideias próprias e uma incapacidade de gerar um argumento racional em qualquer vídeo na internet onde ocorra um debate ou uma enquete com a participação do “povão”.
Diante de tamanha devastação, contudo, esqueçamos o que pede o salmista — e também nós, no início da Missa Romana Tradicional, fazendo eco ao Salmo 42. Não peçamos a Deus para que separe a nossa causa da causa de gente ímpia, mas sigamos a sabedoria popular — de um povo nada sábio — e deixemos de lado a multidão dos nossos pecados, que atrai para a nação cada vez mais a Ira Divina. Abracemos as futilidades que o pão e circo — mais circo do que pão — nos proporciona: embriaguemo-nos, gargalhemos e zombemos de quem não quiser se juntar a nós; vivamos os prazeres da carne enquanto ainda podemos, pois a vida é curta — mas o sofrimento do insensato impenitente… este será eterno.
