Durante décadas, católicos tradicionais e conservadores — com razão — criticaram católicos progressistas por apoiarem posições incompatíveis com a fé católica. A defesa da legalização do aborto, o apoio ao casamento entre duplas do mesmo sexo, a relativização da moral sexual e a diluição da doutrina sob pretextos “pastorais” foram denunciados como traições ao Magistério e ao Evangelho. Essa crítica era legítima: não se pode conciliar a fé católica com tudo isso
Entretanto, a coerência exige que os mesmos critérios sejam aplicados em todas as direções. Se é correto denunciar católicos progressistas que apoiam o aborto em nome de uma falsa compaixão, é igualmente correto denunciar católicos tradicionais e conservadores que apoiam a brutalidade estatal em nome de uma falsa noção de ordem. E é exatamente isso o que ocorre com o apoio entusiasmado de muitos católicos de direita às operações do ICE nos Estados Unidos.
O ICE (U.S. Immigration and Customs Enforcement) é a agência federal responsável pela aplicação das leis de imigração dentro do território americano. Suas ações foram classificadas pela Suprema Corte, acreditem se quiser, como processo civil e administrativo, e não criminal: a deportação não é considerada “punição”. Essa classificação dispensa o ICE de várias garantias constitucionais que a polícia deve respeitar: não é obrigado a oferecer advogado pago pelo governo, não precisa ler os Direitos Miranda antes de interrogar — qualquer um que já viu um alguém sendo preso num filme americano sabe o que são esses direitos —, pode usar mandados administrativos emitidos por ele próprio (e não judiciais, assinados por um juiz neutro), não oferece direito a julgamento por júri popular, não exige padrão de prova “além de dúvida razoável” (bastando a “preponderância de evidências”) e oferece apenas um devido processo mínimo.
Desde janeiro de 2025, com o início do segundo mandato de Trump e a política de deportações em massa, as operações do ICE foram drasticamente intensificadas. No primeiro ano, houve mais de 379 mil detenções e um número recorde de incidentes graves: pelo menos 33 tiroteios envolvendo agentes de imigração, com 9 mortes confirmadas, incluindo cidadãos americanos que morreram numa situação que mostra claramente o completo despreparo dos agentes do ICE. Em centros de custódia, 2025 registrou o ano mais mortal em duas décadas, com causas frequentes como negligência médica, suicídios e até homicídios.
Relatórios independentes apontam superlotação (a detenção subiu 70%), falta de atendimento médico e transferências tardias para hospitais. Documentam-se também detenções prolongadas de menores — incluindo crianças de dois a quatro anos e casos de mais de 250 dias em custódia —, separações familiares com pais deportados deixando filhos cidadãos americanos para trás, uso excessivo de força em operações (gás lacrimogêneo em crianças pequenas, espancamentos) e violações de ordens judiciais: o ICE descumpriu ao menos 96 decisões judiciais só em janeiro de 2026. Organizações como a ACLU e a Human Rights Watch registraram ainda prisões de pessoas que filmavam agentes e condições insalubres nos centros de detenção.
Diante desse cenário, católicos tradicionalistas e conservadores americanos adotaram uma posição claramente favorável às operações do ICE, defendendo as ações da agência como exercício legítimo da soberania nacional, da lei e da doutrina católica sobre imigração ordenada. Publicam textos e artigos que classificam as condutas dos agentes do ICE como algo moralmente bom e acusam bispos e padres que se opõem às operações de estarem politizados, alinhados à agenda democrata e de ignorarem a doutrina da Igreja. O tom é combativo e sarcástico: rotulam esses clérigos como “bispos de fronteiras abertas”, “cúmplices” da imigração ilegal ou hipócritas que priorizam imigração sobre aborto.
A ironia é que, em geral, esses bispos e padres de fato estão alinhados à agenda democrata, mas os católicos tradicionais e conservadores, ao defenderem as condutas dos agentes do ICE, estão se alinhando à agenda republicana.
Essa visão reflete um racha interno no catolicismo americano: enquanto a hierarquia (a USCCB e a maioria dos bispos) critica as deportações e pede acesso pastoral aos detidos, os tradicionalistas e conservadores veem o ICE como instrumento necessário de justiça e ordem, contrapondo-se à narrativa que consideram “progressista” ou “antiamericana”.
É aqui que a hipocrisia se torna gritante. Os mesmos católicos que, durante décadas, acusaram progressistas de submeterem a fé à política — e com razão — fazem agora exatamente o mesmo, porém a serviço de uma ideologia diferente. Se apoiar o aborto por fidelidade ao Partido Democrata é inaceitável, apoiar a brutalidade do ICE por fidelidade ao Partido Republicano e ao governo Trump também o é. A Doutrina Social da Igreja não é um cardápio do qual se escolhem apenas os pratos convenientes.
A Igreja Católica sempre ensinou que o Estado tem o direito de controlar a imigração, mas esse direito não é absoluto e deve ser exercido de maneira ordenada e com respeito à dignidade humana. Deportar imigrantes é uma coisa; gaseificar crianças, separar famílias, deter menores por centenas de dias em condições desumanas, espancar detidos e descumprir ordens judiciais é outra completamente diferente. Defender essas práticas como “exercício legítimo da soberania” é uma perversão da doutrina católica, assim como a defesa do aborto sob o pretexto da “liberdade da mulher”. E que a política anti-imigrante de Trump e a defesa do aborto não estejam no mesmo nível de gravidade, isso não justifica apoiar a primeira.
A verdade é que muitos católicos tradicionais e conservadores americanos substituíram o Evangelho pela ideologia política de direita, assim como os progressistas substituíram o Evangelho pela ideologia de esquerda. O resultado é o mesmo: uma fé instrumentalizada que serve ao partido em vez de servir a Cristo. Quem aplaude a brutalidade contra imigrantes — muitos dos quais são católicos latino-americanos — não pode, com credibilidade, afirmar que defende a fé católica.
A coerência moral exige que se denunciem ambas as distorções: tanto a dos progressistas que apoiam o aborto e a redefinição do matrimônio quanto a dos tradicionais e conservadores que aplaudem a desumanidade do ICE. Do contrário, o que se pratica não é catolicismo, mas tribalismo político com verniz religioso.
É importante lembrar que isso não está longe da realidade brasileira. É fato que no Brasil não existe no atual momento uma preocupação com política imigratória. Mas vivemos uma polarização política igual ou maior que a americana, e muitos católicos tradicionais ou conservadores brasileiros parecem estar prontos a abraçar o filho do “mito” Bolsonaro sem sequer analisar se ele defende políticas tão contrárias à fé católica quanto Lula, mas apenas com a ideologia oposta.
