“A Paixão de Cristo”, de Mel Gibson

Carlos Nougué

O filme The Passion of the Christ foi coproduzido e dirigido pelo ator-diretor americano Mel Gibson, sendo lançado em 2004. É estrelado por Jim Caviezel como Jesus Cristo, Maia Morgenstern como Nossa Senhora e Monica Bellucci como Maria Madalena; e retrata a Paixão de Nosso Senhor fundado em grande parte nos quatro evangelhos, mas também em relatos piedosos, como a Sexta-feira das Dores, e escritos devocionais como as supostas visões atribuídas a Anna Catarina Emmerich. Nada disso tem a capacidade de tornar bom ou mau um filme.

Diga-se, ademais, que o filme narra sobretudo as doze horas imediatamente anteriores à morte de Jesus Cristo, começando com a agonia no Jardim do Getsêmani, prosseguindo com a traição de Judas Iscariotes, a flagelação de Cristo no pilar, o sofrimento de Maria segundo o profetizado por Simeão, a crucificação e morte de Nosso Senhor, e terminando com uma breve descrição de sua ressurreição. Mas a narrativa é intercalada com momentos anteriores da vida de Cristo, como a Última Ceia e o Sermão da Montanha, etc.

Filmado sobretudo na Itália, seus diálogos dão-se porém totalmente em aramaico, hebraico e latim reconstruídos, com legendas nas línguas atuais dos diversos países em que chegou aos cinemas. Extracinematograficamente, o grande mérito da película foi ter mostrado aos neomodernistas vaticano-segundos que a Paixão e a Morte de Cristo não assustam às massas, razão por que está bem que na Missa Nova o eixo deixe de ser o caráter sacrifical e passe a ser o convivial-memorial.

Com efeito, a película teve grande sucesso comercial: arrecadou US$ 612,1 milhões em todo o mundo (contra um orçamento de cerca de US$ 30 milhões) e tornou-se o quinto filme de maior bilheteria de 2004. Atualmente, é o filme cristão de maior arrecadação de todos os tempos. Além disso, chegou a receber três indicações ao Oscar. E especialmente no âmbito do catolicismo tradicional foi muito louvado, não raro, parece-me, com certo exagero.

É que, de fato, afora os salutares efeitos referidos acima, em quase toda a sua duração A Paixão de Cristo padece dos mesmíssimos defeitos do cinema de ação estadunidense em que mel Gibson se fez ator conhecido e reconhecido. Agora diretor, esmera-se Gibson em verdadeira multidão de slow motions (câmeras lentas) em particular na via crucis de Nosso Senhor, e slow motions nada efetivamente artísticos, senão corriqueiros e feitos em ordem, como é o caso aqui, à comoção dos espectadores segundo os medíocres cânones do cinema estadunidense de segundo escalão. A agonia no horto foi filmada com uma câmera trêmula ad nauseam e incapaz de dar ao espectador a menor sensação da excelsitude deste imenso momento do Homem-Deus. A cena de Jesus com Maria na carpintaria paterna não tem nada de superior aos mais sentimentaloides filmecos americanos: com efeito, mostra um Cristo como qualquer outro bom filho com respeito à sua mãe. A breve cena da ressurreição é, digamos, demasiado carnal, e de modo algum deixa entrever nenhuma característica do corpo ressurrecto e glorioso.

A trilha musical, por fim, de autoria de John Debney, não poderia ser mais inconveniente para uma Paixão de Cristo: estaria bem tocada na Broadway.

À parte algumas boas cenas — que sem dúvida as tem o filme —, a única em que o filme alcança um verdadeiro patamar de arte é a da Pietà: um autêntico momento de grandeza pictórica, com as vestes e os cabelos a tremular com o vento e Maria a fitar fixamente a câmera e pois aos espectadores com a mais digna expressão da Mãe de Deus, dolorosa, sim, mas agudamente inquisidora e ciente da razão de tudo quanto estava vivendo. Está realmente entre as mais deslumbrantes cenas cinematográficas de todos os tempos.

Não se pode, portanto, meramente lançar a Paixão de Mel Gibson ao quase infinito monturo hollywoodiano. Mas tampouco há que elevá-la à categoria das obras artísticas cuja grandeza é uma como antecipação do mundo novo que abrigará a vida eterna.

2 comentários sobre ““A Paixão de Cristo”, de Mel Gibson

  1. Dito isto, discordo do Prof. Carlos Nougué. Tratando de cinema — a “sétima arte” — algumas questões objetivas são bem-vindas ao se analisar um filme. Para tal, ao analisar uma obra de arte, se necessita de conceitos para declarar uma obra bela ou não, conceitos universais, isto é, algo objetivo que ultrapasse o subjetivo (entre eles a proporção, a forma e outros conceitos elencados pela escolástica) porque tudo que é belo comunica uma verdade de um *todo* — que é Deus. Sendo assim, ao não relembrar esses conceitos fundamentais, uma análise que frisa questões subalternas, como o slow motion: “segundo os medíocres cânones do cinema estadunidense de segundo escalão”, nas palavras de Nougué, carece de objetividade, reduzindo a questão ao pessoal. Com efeito, uso do efeito serve para prolongar uma cena, um momento do filme, que sendo da Paixão de Cristo adquiri uma carga simbólica tremenda, quiçá meditativa; parafraseando uma obra de arte renascentista, Mel Gibson tem sua própria versão da Pietá, quando a Santíssima Virgem recebe em seus braços seu Filho descido da cruz — e isso é um único exemplo. Poderia citar outros detalhes do filme, como Judas “coçando” seus lábios ao ver Jesus preso pelos Judeus e interrogado, os mesmo lábios usado para trair o “Mestre”. Contudo, o filme pode ter seus defeitos (como toda obra de arte analisada sob uma óptica privada) que podem ser defeitos para você enquanto para mim podem ser uma qualidade.

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