Carta Pastoral “Instrução Quaresmal” de 1946, de Dom Ranulpho Farias

Nota introdutória

Dom Ranulpho da Silva Farias, de venerável memória, foi Arcebispo de Maceió de 1939 até sua morte em 1963, após quase uma década de enfermidade. É de grande alegria realizar a publicação desta sua carta pastoral em tempo tão propício, tendo a quaresma iniciado há pouco, sendo assim também um certo dever de justiça a necessidade de se fazer saber sua biografia, ainda que de forma breve.

Ao contrário do que é corrente se espalhar acerca do nosso histórico episcopado e dos católicos brasileiros, como o disparate de que não tivemos grandes e heroicos bispos, Dom Ranulpho da Silva Farias foi de um tempo em que eles reluziram num trabalho constante, zeloso e fiel, com obras silenciosas porém eficazes, verdadeiras pérolas ocultas da história de nosso país. Conhecer sobre a vida desses bispos, como Dom Ranulpho, e aprender de sua sabedoria apostólica é receber o que nos foi transmitido e conhecer o espírito de fé que animou nossos maiores ao longo da plurissecular história de nosso país.

João Medeiros
Editor-chefe


Nota biográfica

Filho de Antônio e Emília da Silva Farias, Dom Ranulpho nasceu em 12 de setembro de 1887 no histórico município de Nazaré, no Recôncavo Baiano. Havendo estudado em sua juventude no Ginásio Arquiepiscopal de São Vicente de Paulo, entrou para o seminário ao fim dos estudos e foi ordenado sacerdote por Dom Jerônimo Tomé da Silva, Arcebispo de São Salvador da Bahia e Primaz do Brasil, em 3 de abril de 1910, com pouco mais de 22 anos de idade. Auxiliou como vigário na paróquia de São Miguel da Lage e depois foi pároco em Oliveira dos Campinhos. Foi também capelão da Santa Casa de Misericórdia de Nazaré. Não demorou muito para que fosse feito professor de latim no seminário e dirigente de outras atividades arquidiocesanas, sendo em 1914 nomeado subsecretário do arcebispado e encarregado do arquivo da mesma Sé. Em 1915, o então Pe. Ranulpho foi nomeado cônego catedrático do cabido metropolitano de Salvador. Entre os anos de 1913 e 1919, o então Mons. Ranulpho foi responsável pela redação do Boletim Eclesiástico, onde se destacou com artigos profundos e meditações sobre sacramentos, sacerdócio, ascese, dentre outras coisas, que davam nota de sua grande inteligência e fino gosto literário, dirigidos ao clero.

Em 22 de abril de 1920, o Papa Bento XV nomeou-o como o segundo bispo da diocese mineira de Guaxupé. Dom Ranulpho foi sagrado ao episcopado no dia 12 de setembro de 1920, em seu aniversário de 33 anos, tomando posse de sua nova diocese no dia 28 de novembro do mesmo ano. Como Bispo de Guaxupé, Dom Ranulpho, um jornalista por vocação, logo fundou o Jornal Diocesano para difundir a doutrina católica por toda a região, incentivou as Santas Missões, criou a Liga Católica, fundou o Seminário Diocesano e inaugurou o Paço Episcopal de Guaxupé. Em 1932, foi um dos bispos que sagraram ao episcopado o futuro Cardeal Dom Carmelo de Vasconcelos Mota, primeiro Arcebispo de Aparecida. Após dezenove anos de frutuoso episcopado à frente da Diocese de Guaxupé, onde consolidou e ampliou a obra apostólica na jovem diocese, quis a Divina Providência que Dom Ranulpho retornasse ao Nordeste brasileiro.

No dia 5 de agosto de 1939, Dom Ranulpho foi nomeado como terceiro Arcebispo de Maceió, após a morte de Dom Santino Maria Coutinho, pelo Papa Pio XII, tomando posse da mesma Sé Metropolitana no dia 23 de novembro daquele ano. Organizou a Ação Católica, viu crescer o número de vocações, combateu os avanços do protestantismo e do kardecismo enviando padres peritos para os lugares devidos, reformou e dinamizou os modos do seminário arquidiocesano, organizou a administração arquidiocesana, reformou o Cabido Metropolitano, fundou o Arquivo da Arquidiocese, fundou o Museu da Arquidiocese, fundou escolas e colégios. Fundou na Arquidiocese a Federação das Congregações Marianas, as Pias Uniões das Filhas de Maria e as Cruzadas Eucarísticas. Obteve do Governo de Alagoas a lei que permitiu o ensino religioso nas escolas públicas e difundiu o ensino religioso nas mesmas. Consagrou o Arcebispado de Maceió ao Imaculado Coração de Maria, realizou Congressos Eucarísticos (sendo o mais destacado o de 1945, que se assemelhou ao Congresso Nacional em esplendor, piedade e concurso de bispos, sacerdotes e povo) e fez o que considerou sua grande obra: a instalação do Santuário Eucarístico da Arquidiocese, até os dias de hoje localizado na Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, no Centro de Maceió.

Em meados da década de 1950 começou a enfrentar problemas de saúde, e teve indicado como Arcebispo Coadjutor Dom Adelmo Cavalcante Machado, a quem sagrou bispo em 1948. Em 1963, estava ausente de sua Sé Arquiepiscopal, realizando tratamento de saúde em Salvador da Bahia, onde repousou no Senhor aos 76 anos de idade. Foi sucedido por seu coadjutor na Arquidiocese de Maceió.

Sacerdote por 53 anos e bispo por 43 anos, foi com vigor apostólico incansável que Dom Ranulpho dedicou mais de vinte e quatro anos de seu episcopado à Arquidiocese de Maceió, a qual sempre governou com zelo, diligência, verdadeira autoridade, sabedoria e eficiência, recuperando as finanças arquidiocesanas, fazendo crescer seu patrimônio material para ajudar na obra apostólica e, sobretudo, fazendo crescer seu patrimônio espiritual ao encaminhar homens ao Céu através da reta doutrina católica que propagou por toda sua vida, legando um rico patrimônio de cartas pastorais, circulares, instruções, mandamentos e decretos que foram um verdadeiro luzeiro para todo o clero e o povo arquidiocesanos.

Dom Ranulpho da Silva Farias viveu sua vida conforme o lema que escolheu para o seu episcopado: Per ipsum et cum ipso et in ipso (Por Ele, com Ele e n’Ele).


Instrução quaresmal de Dom Ranulpho da Silva Farias, por mercê de Deus e da Santa Sé Apostólica, Arcebispo de Maceió, ao Revmo. Clero e aos fiéis deste Arcebispado.

Veneráveis irmãos e filhos amadíssimos, saúde, paz e bênção no Senhor.

Salutar costume, nas diversas dioceses do orbe católico, é o de endereçarem os diligentes Prelados, na época quaresmal, a seus caros diocesanos, exortações de ordem religiosa, tendentes ao afervoramento de seus filhos espirituais, a urgir, a observância mais fiel dos mandamentos do Senhor e da Santa Madre Igreja.

São paternais instruções que põem de sobreaviso os fiéis contra a investida do mal e a onda dos erros em matéria de fé, das ideologias revolucionárias, ímpias, disseminadoras da incredulidade e das desordens morais.

Os Soberanos Pontífices, como autênticos bispos de Roma que são, vêm, de há muito, congregando, anualmente, antes do início da Quaresma, em torno de sua augusta pessoa, o corpo paroquial de sua Alma Cidade, estimulando-o no cumprimento do dever pastoral, traçando-lhe diretrizes, estabelecendo-lhe programa de oportunas pregações, visando, assim, o fortalecimento da vida religiosa entre os cristãos.

Tal como o pastorzinho, de cajado em punho, guia suas ovelhas ao pasto das relvas e ao curso das águas límpidas, por igual modo assiste ao pegureiro diocesano proporcionar a seu rebanho espiritual o alimento da fé e o manancial dos sagrados ensinamentos que Deus, pela Revelação, nos outorgou, cujo depósito a Santa Igreja Católica, fidelissimamente, guarda e conserva íntegro na essência, distribuindo-o mediante seu infalível magistério.

Urge mais alertada vigilância, mais empenhada solicitude, nestes inquietos tempos, de tanta irritabilidade e sofreguidão, de tamanhas ambições e desatinos.

Escreve-se muito, no momento. Fala-se ainda mais.

A inteligência, insatisfeita, incontentável, exige ideias a ruminar, a agitar, a variar, em uma ânsia suprema de alcançar a felicidade terrena. Opulenta é a contribuição dos doutos, sociólogos, filósofos, políticos, jornalistas e literatos. Todos, em uníssono, emitem opiniões, conceitos, ora belos e luminosos como o dia; ora profusos e difusos como a atmosfera que nos circunda; ora, ainda, profundos e obscuros, como a misteriosa noite, como a natureza em trevas.

Em geral, aberram eles do espírito do Evangelho, subtraem-se às diretrizes da Igreja, contrariam a vontade do Rei dos Reis, do Legislador Supremo, do Soberano dominador das gentes. Por esta falta de tangência no ponto nuclear da verdade, por esta abstenção da origem da sabedoria infinita, nada sacia a mente do homem e nem lhe enche o coração de ventura.

Tornemos, caríssimos filhos, à singeleza e veracidade do Evangelho, no qual somente se encontra a salvação. Creiamos em Deus com todas as veras e adesão irrestrita de nosso entendimento. Só desta maneira teremos paz, serenidade e concórdia em nossos dias. Andemos, qual nos aconselha Jesus Cristo, com a tocha ardente da fé na mão e os rins cingidos pela mortificação virtuosa.

Duas são as ordens do Senhor, comenta habilmente São Gregório Magno, Papa: apertar a região lombar e sustentar o archote, para que haja pureza de castidade no corpo e luz da verdade nas operações. Ao Redentor, uma sem a outra não pode contentar. Nem a castidade é magna sem a boa obra e nem esta tem significação valiosa sem a castidade.

Significa isto que devemos viver de fé e pela fé. Tenhamos muita fé e vivamos segundo a fé. Não sejamos, na irônica e e lapidar expressão do Padre Antônio Vieira, ortodoxos da fé e hereges dos mandamentos.

É a Quaresma a quadra mais propícia à reflexão acerca das verdades eternas, à meditação em torno dos deveres religiosos. Tempo de consideração sobre a Paixão e Morte de Nosso Senhor Jesus Cristo, Deus e Homem verdadeiro, que, sendo o Verbo Eterno, em tudo semelhante a seu Eterno Pai, se dignou baixar à terra, tornar-se também semelhante a nós, exceção feita do pecado, a fim de redimir a humanidade. Deu, dessa forma, aos homens, com o preço de seu preciosíssimo sangue, o direito e recursos para atingir a perfeição cristã e, na Glória, merecer a sempiterna bem-aventurança.

O problema do fim sobrenatural tido em vista pelo Onipotente na criação do mundo e, mormente, na formação da criatura humana, diferente, esta, dos inferiores seres da natureza pela nobreza de sua alma, pela supremacia da luz de sua inteligência e vulto de sua elevação moral, tudo nos deve pôr em constante condição de exame, de renovados avisos, de reabilitação de esforços, para o implemento ou consecução de nossos destinos no tempo e na eternidade.

Questão predominante, essa, para nós, que vivemos, de contínuo, na terra, absorvidos por inúmeras solicitudes temporais, entravados por mil opressores óbices de ordem sentimental, tentados estrenuamente pelo espírito das trevas.

A salvação pela fé, caríssimos diocesanos, é o que nos inculca e segreda a nossa formação cristã. Aos grandes males, corresponde opor-se o mais válido recurso, o mais enérgico e eficaz remédio.

O medicamento que Deus propina às almas para a cura de seus males espirituais, no regime da crença e da moral, outro não é senão a prática da fé. Só a convicção pela fé, só o sacrifício pessoal, a renúncia e a generosidade, em consequência da fé, resolverão o conflito de ideias na hora presente. Sem o constrangimento da vontade, por motivo de fé e amor de Deus, não cessarão os gravíssimos erros, não se evitarão as culpas mortais, que são as causas do deplorado descalabro deste século. Sem mortificação, não existirá perfeição. E sem o progresso íntimo dos indivíduos, não se modificará para melhor a situação social.

Anda o mundo por demais materializado. O ameaçador Comunismo outra coisa não é senão a explosão, a grosseira manifestação desse avassalador materialismo contemporâneo, que põe a matéria acima do espírito, as exigências terrenas triunfantes sobre os relegados imperativos da consciência cristã.

Contenta-se o homem epicurista e rude de nosso século com as vantagens imediatas, os proveitos palpáveis, o ganho, o gozo, o prazer, as satisfações pessoais. Em consequência desse abandono da fé ou, mesmo, da ostensiva e afrontosa incredulidade de muitos, surge, nos costumes públicos, a eclosão de lamentáveis desordens, de despudor, de absurdos e falta de escrúpulos, em variadas modalidades e graduada virulência.

Irrupções de ódios, embates de competições, fragor de interesses, jogo de desmedidas ambições, insaciabilidade nos lucros, descomedimento no desejo, imoderação na cobiça, desenfreio na corrida, louca e arriscadíssima, em busca do aproveitamento, apego ferrenho às utilidades efêmeras e contingentes da terra.

São Paulo, já nos primórdios do cristianismo, escrevendo sua Segunda Epístola a Timóteo, previa a calamidade dos erros e vícios que, não obstante, a influência do cristianismo, haveria de campear entre os homens obstinados, servidores da matéria. No início do capítulo terceiro, assim se exprime:

Sabe, porém, isto, que, nos últimos dias, sobrevirão tempos perigosos.

Haverá homens cheios de amor de si, avarentos, entonados, soberbos, blasfemos, desobedientes aos pais, ingratos, malvados, sem afeição, sem paz, caluniadores, incontinentes, desumanos, sem benignidade, traidores, protervos, enfatuados, e mais amantes da fatuidade do que de Deus.

Mesmo tendo a aparência de piedade, haveria os que não teriam a virtude da piedade.

Há uns que penetram nas casas e levam cativas mulherinhas carregadas de pecados, que se movem por diversas paixões.

As infelizes pecadoras, aqui citadas com diminutivo pejorativo, “estão sempre a aprender, mas nunca chegam ao conhecimento da verdade”.

Quando se alteram prejudicialmente as boas e sãs normas públicas, não há mesmo lição que sirva de corretivo e prevenção. Os exemplos de infortúnios de uns não demovem outros de, se acautelando, incidirem nas mesmas faltas. O afrouxamento dos nobres sentimentos de pudor, a lassidão do pejo, a relativa tolerância dos escândalos e a desmedida ânsia do prazer, do luxo, das estultas vaidades, tudo facilitam, atraindo, seduzindo, precipitando as almas, pelo plano inclinado das culpas, para o abismo das tragédias e misérias morais.

Sinais dos tempos sem fé. Reflexos da ausência da força sobrenatural. Carência do heroísmo da virtude. Privação do domínio de Deus nas convenções sociais. Facilidade imensa de pecar. Quase diríamos, por absurdo, necessidade, pelo contágio de errar, de se corromper e de a outrem arrastar à corrupção.

Prossegue São Paulo a Timóteo:

Tu, porém, tens seguido a minha doutrina, modo de viver, fim que me proponho, fé, longanimidade, caridade, paciência, perseguição, vexames. Todos os que querem viver piamente em Jesus Cristo hão de sofrer perseguição.

Mas os homens maus e os sedutores avançarão para o pior, errando e fazendo cair no erro.

Mantém-te, tu, firme naquelas coisas que aprendeste e que te foram confiadas.

A nós outros, os sacerdotes, figurados em Timóteo, aos fidelíssimos católicos, observantes das leis divinas, sirva-nos esta admoestação de estímulo para o nosso próprio governo e de inspiração para a severidade de nossos atos. Tão candentes e sinceras palavras do grande Apóstolo fazem-nos robustecer a convicção de que só a fé, a poderosa fé em Deus e nos mistérios salvíficos de nossa Santa Religião, possuirá eficácia e vigor para a regeneração dos costumes e beneficiamento da humanidade pecaminosa.

Se os homens se tornarem, cada vez mais, materialistas e incrédulos, o mal agravar-se-á dia a dia. E então terá o nosso Deus, infalível em sua copiosa misericórdia, de pôr termo, por algum meio persuasivo em seu poder, à onda montante das licenciosidades e desvarios humanos.

Quanto a nós, amados filhos, como gratos e genuínos amigos de Deus, conservemos viva e influente a nossa fé. E, para nutrir a lâmpada dessa nossa crença, não olvidamos a preocupação de coletar o óleo indispensável à manutenção de sua chama sempre vívida e constante.

Apertemos a nossa vontade e instiguemos o nosso brio, encorajando-nos para mais alentadoras e decisivas disposições quanto ao cumprimento de nossos deveres religiosos, intensificando nosso amor e acatamento a Deus, incentivando as nossas atividades apostólicas, fortalecendo nossa adesão à Santa Igreja. Forcejemos para que cresça a fé em nós e se dilate entre os nossos irmãos.

Daí a premente necessidade do incremento da Ação Católica, que concretiza os ideais do apostolado hodierno. Demos à fé preponderância em nossas aspirações, palavras e ações. Vivamos a nossa fé.

Consideremos o preço dos mistérios inefáveis de nossa Religião. Ponderemos quanto de puro, de grandioso e elevado se encerra nas cerimônias do culto católico. Assistamos, piedosamente, aos atos litúrgicos, especialmente à celebração da Santa Missa. Não nos eximamos, por frutuosa devoção, à adoração do Santíssimo Sacramento solenemente exposto. Desagravemos o Senhor, em expiação de nossos delitos e dos de nossos irmãos pecadores. Cultivemos o uso das confissões perfeitas e das frequentes comunhões. Demos todo apreço às nossas particulares orações, que tanto nos colocam em contato com a Divindade.

Os frutos da Redenção a nós são aplicados mediante a recepção dos Sacramentos. Os sete Sacramentos, todos de instituição divina, são os ordinários canais das graças de Deus, os meios, adequados aos homens, de que o Onipotente se serve para nos comunicar seus sobrenaturais influxos, operando, desse modo, a nossa santificação. Produzem seus imediatos efeitos pelo simples fato de serem administradores a quem não apresenta obstáculo à recepção da divina graça.

Por eles, diz o Concílio de Trento, tem início a verdadeira justiça, a santidade. Instrumentos preparados pela Divina Providência, atuam, comunicam, conservam ou aumentam a fé, concedendo graças especiais e acomodadas às necessidades espirituais das almas.

O Batismo é a porta de ingresso ao grêmio da Igreja, o começo da vida sobrenatural. Gera os novos cristãos. Dá-lhes o direito ao recebimento dos demais Sacramentos. Confere-lhes os foros de candidato à cidadania do Céu.

A Crisma confirma-nos a fé. Empresta-nos energias novas para os combates pela fé. Arma-nos cavaleiros de Jesus Cristo e soldados da Igreja. Predispõe-nos a mais vitalidade, consciência, gosto e eficiência na vida social do catolicismo. Daí, dizer-se, hoje, que é o Sacramento da Ação Católica, isto é, do zelo religioso, do apostolado cristão, das atividades católicas.

A Eucaristia, o Sacramento por excelência, que não só compreende a graça mas encerra, de maneira real e estável, o próprio Autor da graça. Estabelece a mais íntima união de Deus com os homens, em preparação e penhor para a duradoura aliança de Deus com a alma, na celeste e beatífica visão. É o foco do amor divino, a urna da unção espiritual, das ascensões piedosas, das disposições e incentivos para a vida pura e digna dos eleitos, predestinados à glorificação na eternidade.

A Penitência. A contrita confissão de nossos pecados ao sacerdote autorizado, para que, em nome do Todo-Poderoso, no-los perdoe apagando, assim, as nossas faltas, delindo os nossos inquinados pensamentos, desejos, obras e omissões. Ergue-nos de nossas quedas, das transgressões da lei de Deus. Retempera-nos com os firmes propósitos de emenda, reanimando a enfermiça vontade.

A Extrema-Unção, o escudo defensor para o derradeiro combate, o óleo suavíssimo da misericórdia do Senhor a se derramar sobre o nosso corpo pecaminoso, quando enfermo, abandonado das forças naturais. Alento de fé e de perdão. Claridade, na antemanhã da eternidade.

A Ordem, a fecundidade perene da Igreja, a constante renovação dos ministros sagrados, dos ungidos do Senhor, dos sacrificadores no incruento holocausto de nossos altares, dos dispensadores dos inefáveis mistérios, dos pais do povo pela fé, pela dignidade e excelsitude de sua missão de embaixadores do Céu e de representantes visíveis de Deus.

O Matrimônio, finalmente. A santificação do enlace matrimonial. Um incessante fluir de bênçãos celestiais para os lares cristãos. Um ininterrupto comércio, entre Deus e os cônjuges, de benevolência e complacência, de comunicação do poder gerador e da autoridade paterna do Autor de todas as coisas.

São, caríssimos, filhos, estes Sacramentos os veículos da aplicação às almas dos méritos e proveitos da Redenção do Salvador. Abrangem a economia da Igreja e da sociedade cristã. Abraçam toda a vida do filho da Santa Igreja, desde o berço até à beira do túmulo, em todos os seus principais aspectos, na esfera particular e na social, na familiar e na profissional.

Eis aí, pois, os elementos extraordinários que a bondade divina, em seus imperscrutáveis desígnios, compôs e acomodou às necessidades espirituais do gênero humano. Agradeçamos ao dadivoso Pai do Céu, por tantas e tamanhas provas de sua aquiescência, vigilância e assistência a nosso respeito.

A doutrina sagrada transmite-se aos fiéis pelo órgão competente dos legítimos pastores. Uma das mais urgentes e importantes missões confiadas por Jesus Cristo à sua Igreja foi o magistério, o múnus de ensinar. À Igreja compete propagar, pelo ensino, através de todas as gerações, até a consumação dos séculos, segundo o preceito de Jesus Cristo, a Boa Nova, trazida por Ele do Céu à terra. A semente do Evangelho há de ser espalhada pelo sopro do Divino Espírito Santo, mediante a voz dos pregadores sagrados, dos disseminadores da fé.

“Quão formosos são os pés que evangelizam a paz, dos que evangelizam os bens!” É de São Paulo, na Epístola aos Romanos, citando Isaías. A pregação difundirá e impulsionará a fé, fazendo, como o levedo, fermentar a vida religiosa na massa da sociedade cristã. E a fé, como é evidente, comunica-se pela pregação da doutrina evangélica da Igreja.

São Paulo, já repetidamente invocado nesta nossa singela Carta Pastoral, demonstra esta asserção com um raciocínio de translúcida evidência, nessa sua Epístola aos Romanos, no capítulo décimo, versículo treze.

Todo aquele que invoca o nome do Senhor, será salvo. Mas como invocarão Aquele em quem não creram? Ou como hão de crer n’Aquele quem não ouviram falar? E como ouvirão sem quem lhes pregue? E como pregarão, se não forem enviados? “A fé é pelo ouvido, e o ouvido pela palavra de Cristo”. Esperamos, confiadamente, que os Revmos. Párocos, os sacerdotes que os auxiliam no pastoreio das almas, os capelães e demais reitores de igrejas, redobrem, no presente, seus empenhos e cuidados, no sentido de ser, cada vez mais, animada pela pregação da palavra divina a fé da grei do Senhor.

O passado Congresso Eucarístico Provincial da Ação Católica, providencialmente realizado nesta Sede Metropolitana, foi de si, e pelos benéficos resultados obtidos, um valioso impulso de fé comunicado ao povo arquidiocesano. Não deverá cessar esse saudável alento de fervor. Não poderão arrefecer os êxitos de tanta vida sobrenatural. Cumpre-nos assegurar, sem esmorecimento e descontinuidade, tão alentador movimento de espiritualidade, de vivivescência católica.

Aos animadíssimos católicos da Cidade de Maceió fazemos, aqui, um caloroso apelo para que mantenham, na Igreja do Rosário, sede escolhida para a exposição diurna do Santíssimo Sacramento, fervido e animado, intenso e crepitante, o culto ao mesmo Santíssimo Sacramento da Eucaristia. Essa pia adoração a Jesus Sacramentado, como sabeis, é a perpétua lembrança, o precioso memorial do nosso esplêndido e frutuoso Congresso Eucarístico. Luza a fé na mente de todos os caríssimos arquidiocesanos e reine o amor de Deus em seus amáveis corações.

E, como auspício da divina munificência, a todos, pastores e fiéis deste muito amado rebanho, concedemos, em nome do Senhor, nossa bênção pastoral. Benedictio Dei Omnipotentis, Pa+tris, et Fi+lii, et Spiritus + Sancti, descendat super vos et maneat semper. Amen.

Paço Arquiepiscopal de Maceió, aos 17 de fevereiro de 1946, domingo da Septuagésima.

+ Ranulpho
Arcebispo Metropolitano de Maceió

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