A oração de Santa Teresinha pelos sacerdotes

Objeção por objeção

Sinal patente de orgulho é o escrúpulo de um leigo que não acessa literatura espiritual sem ser aquela própria para seu estado atual de vida. Deixar de ler a Imitação de Cristo, de Kempis, ou certos capítulos d’A Alma de Todo Apostolado, de Dom Chautard, pelo fato de que é direcionado “para padres”, é um erro similar àquele do troglodita que não reza o terço por ser coisa “para mulheres”: a fraca vontade enfraquece a inteligência. Pois se tratam de textos de reconhecida luz para todos, inclusive para nós, leigos cuja concentração nas coisas sagradas é mais árdua, dada a necessidade da vida secular e — atualmente —  a precariedade da devoção na crise modernista, precariedade que chega ao ponto de nos retirar o sacrário da igreja e empurrá-lo numa salinha abafada. Muitas vezes, hábitos mentais desta natureza nos tornam grandes improvisadores no ofício universal de santificar-se, e se a princípio começamos a sê-lo por constrangimento e imperícia, por vezes insistimos nisto por vício.

Como, por exemplo, quando, podendo, não fazemos uso da água benta, das velas, dos cantos, dos ícones, enfim, quando evitamos falar das coisas da Religião e quando deixamos de ler tal e tal texto contraindicado por influencers por ser “pouco prático” ou “demasiado hermético”. Assim terminamos dando à vida devota uma secura que ela não possui, um jejum negro de catolicismo que nos leva a pensar e agir como mundanos.

Certamente não é razoável ignorar as contraindicações de um diretor espiritual, pois quem possui um diretor em tempos como os nossos deve valorizá-lo sobremaneira; também não devemos prodigalizar o estudo do núcleo-duro da Teologia, muito menos da Teologia Moral, salvo as excepcionalidades raríssimas nunca independentes do juízo de um sacerdote. Mas a aqui ensaiada apologia da interespiritualidade — para não usar o maltratado termo “ecumenismo” —, em matéria de literatura espiritual, consiste na admiração a outros estados de vida cristã, que nem sempre redunda em imitação.

Fato conhecido da biografia de Dom Marcel Lefebvre é seu apreço pelos conventos religiosos que patrocinavam suas missões: o sacerdote reconhecendo Cristo no religioso. Fato conhecido da hagiografia de São Luís Martin é sua grande veneração a São Francisco Xavier, pois chegava a assinar cartas atribuindo-se o sobrenome “Xavier” por pura devoção: era o leigo reconhecendo Cristo num sacerdote missionário. Como se pode confundir tais coisas com escapismo e fuga dos deveres? É a atenção laudatória ao aspecto da unidade no Corpo Místico de Cristo. Solidarizamo-nos uns com os outros; somos um, pois temos o mesmo objetivo: a glória maior de Deus pela salvação das almas.

Luís não pôde acompanhar São Francisco Xavier em suas missões apostólicas, mas sua filha pôde, e, desde Pio XI, ela é padroeira das missões católicas ao lado do santo que seu pai tanto amou. A quem deve ela toda a admiração que tinha aos propagadores da Fé, que nem mesmo as paredes do convento detêm? Santa Teresinha do Menino Jesus e da Sagrada Face é notável por ter ensinado um caminho de santificação, pode-se dizer até de perfeição, recomendado aos que são incapazes de realizar grandes obras para Deus. É a chamada “Pequena Via”. Teria ela nos esclarecido tanto sobre a grandiosidade da pequenez espiritual se não tivesse ouvido falar das magnânimas obras de Xavier? Não se pode acusá-la de arrogância ou de puritanismo, visto que seus brilhantes textos e sua vida combateram o jansenismo residual que havia no fim de século da França oitocentista: um rigor moral costumeiro, perverso por querer opor obstáculo a apreciação das coisas divinas sob o pretexto da indignidade humana.

Invocando a Pequena Flor do Carmelo, objetamos ao falso zelo do absenteísmo espiritual com sua terníssima oração pelos sacerdotes, pois não é apenas em jantares, elogios pela “bela missa” e serviços paroquiais que consiste a devoção ao padre. O respeito interior à vocação de quem se ocupa da salvação das almas é uma pontual docilidade a seu governo, uma atenção invencível a seu conselho, uma fina adesão a seu Sacrifício, e aquela solidariedade na unidade que nos leva a rezar por eles.

Pedido por pedido

Oh, Jesus, sacerdote eterno, guardai os vossos sacerdotes no vosso Sagrado Coração, para que nada de mal lhes possa acontecer.

Como ocorre em todo fruto de verdadeira devoção, não demora para que sejam amorosamente expressas algumas verdades de Fé, qualidade que nos remete ao que o Apóstolo chama de “culto racional” (Rm. XII, I). Os fundamentos são sempre verdades conhecidas e nunca somente sentimentos. É irresistível acenar ao dogma quando a sublimidade das palavras emerge da Verdade incontestável: não existe sacerdócio verdadeiro fora de Nosso Senhor Jesus Cristo, do qual o sacerdócio de nossos padres depende em todos os seus aspectos. Mesmo a maior ciência que possuem está ordenada a honra que se deve a tal grau de configuração a Ele. Porém os poderes de perdoar pecados e de renovar e perpetuar sacramentalmente o Calvário não garantem ao homem os afetos do Coração de Jesus Cristo: é preciso interceder, pedir ao Senhor que não venham a desonrar o Senhor, não venham a falar em seu Nome sem estar espiritualmente com Ele, o que privaria a todos de tirar maior fruto dos sacramentos, apesar de não privar da validade destes.

O estado sacerdotal, como tal, não é garantia nenhuma da felicidade eterna e embora seja de todos os estados o mais santo e venerável, não santifica sem a cooperação pessoal de quem o abraçou. O pecado do sacerdote é maior, maior é a responsabilidade do sacerdote, porque maiores são as graças que recebe; mais clara é sua compreensão das coisas de Deus. Os fiéis devem rezar pelos sacerdotes, para que Deus os conserve na sua graça.

(Pe. Lehmann in ‘Na Luz Perpétua (…)’, v. I, 1928)

É preciso interceder para que aqueles que nos introduziram no Corpo do Senhor sejam introduzidos em seu Sacratíssimo Coração. Que sintam! Que desejem ardentemente! Que se alimentem da vontade de Deus! Certamente o maior mal que se possa desejar a um padre é que ele não aspire ao que Deus aspira, que ele aja a contragosto no que faz por demanda divina, que se incline aos bancos da igreja e não ao altar. No Coração de Jesus, junto aos seus afetos, o mal não lhes poderá alcançar.

Conservai imaculadas as suas mãos ungidas que tocam todos os dias vosso Sacratíssimo Corpo.

As mãos do sacerdote simbolizam as suas obras, que são sete: os santos sacramentos. Alguns sacramentos imprimem caráter e nem no inferno se revertem, outros podem ser ministrados por leigos, mas carecem da convalidação de um dos homens da Igreja para que não se configure ilicitude ou invalidez. Cada qual possui sua delicadeza, fórmula, finalidade etc. Mas nenhum pode superar o superlativamente santo: a Eucaristia, Corpus Christi, donde nos vem a salvação e a Graça. Dignidade igualmente superlativa é a de mudar a frugalidade do trigo e da uva em algo, ou melhor, em Alguém digno de ser apresentado a Deus, isto é, seu Filho Jesus Cristo. Nem mesmo os anjos possuem essa capacidade, e se é certo que eles comungariam fervorosamente caso tivessem oportunidade, também o é que osculariam o suporte de tamanho poder: as mãos do sacerdote.

A senhora Hilaire Nicolas depôs ter sabido por uma das damas de honra da Madame de Montespan que o dito padre Grignion, acabando um dia de celebrar a Santa Missa na capela da dita Madame de Montespan, entrou na sacristia a fim de efetuar a sua ação de graças; ao sair, deu-se conta da presença de um homem cego e perguntou-lhe se ele queria ser curado, ao que o homem respondeu que sim; então, Montfort molhou um dedo na saliva, esfregou-lhe os olhos e, no mesmo instante, o cego recuperou a vista e gritou que via muito bem.

(Joseph Grandet in ‘La vie de Messire Louis-Marie Grignion de Montfort (…). Nantes: Verger, 1724, p. 428)

Imagino, ao ler este relato de um milagre de São Luís de Montfort, que um padre ao se desparamentar e iniciar a ação de graças após sua missa, pudesse meditar sobre sua indignidade perante o Santíssimo Sacramento, e em ato de humildade após um uso tão público da persona Christi, quisesse fazer comparação de si com o barro no qual Nosso Senhor misturou saliva para curar o cego de nascença (Jo. IX, 1-15). Sim, pois sabemos que o barro não cura a cegueira, mas é o que procede da boca de Deus que ilumina. Então o Cristo mesmo mistura sua saliva com o barro por um ato determinante de sua vontade, assim por motivo semelhante ordena seu sacerdote para iluminar. Ele mistura-se com o barro, o padre tem em si já a argila formada, com a saliva de Deus e o barro de si; portanto, o São Luís não cospe no chão, mas diretamente de sua boca, aplica-se aos olhos do cego. Ilumina com humildade, luz mais verdadeira — no homem — não há.

Conservai imaculados os seus lábios diariamente tingidos com o vosso Preciosíssimo Sangue.

Os lábios do sacerdote é de onde saem suas palavras, incontornavelmente presentes nos sacramentos através das fórmulas, mas aqui nossa reza inclui a integridade da pregação, o ensino, a virtude da religião, para que correspondam ao Sangue de Cristo carregando conspicuamente suas cores. Tal qual profetas, levem os homens ao arrependimento e à emenda como o Sangue de Cristo costuma fazer, levem os homens ao ânimo e à magnanimidade da alegria. A pregação do padre percorra todo o corpo fiel, como o sangue percorre o organismo. E que a ausência deste sangue seja denunciada pela dormência dos membros, que o formigamento acuse sua falta, faça com que se deseje o conselho de um sacerdote.

“Não é aquilo que entra pela boca, que mancha o homem, mas aquilo que sai da boca, isso é que torna imundo o homem” (Mt. XV, 11): são as palavras de Nosso Senhor que fundamentam o temor do sacerdote ao preparar seu sermão, pois em que pese que o que entra seja santíssimo, isto é, o Corpo do Senhor, talvez o que sai da boca carregue demasiadamente o que há no coração do homem e não no Coração de Jesus. A Fé que entra pelo ouvido sai dos lábios do sacerdote.

“Prega a palavra, insiste a tempo e fora de tempo” (2Tm. IV, 2): o sacerdote é aquele pelo qual toda comunidade de fiéis mede a violência que fazem ao pecado, a princípio seus próprios pelo fervor da penitência, mas também os pecados daqueles que estiverem ao seu alcance, pela caridade do conselho. Ao contrário da caridade material, esta caridade espiritual do conselho é amaldiçoada pelo mundo, portanto, deve ser abençoada pelos padres, e abençoada antes pela imposição dos lábios do que pela imposição das mãos. Devem formar vanguarda nessa matéria, criar a ocasião de falar de Fé e de moral. A negligência deste dever é a que se deve toda a crise modernista nos moldes em que lhe acessamos.

Conservai os corações, que selastes com o sublime Sacramento da Ordem, puros e livres de todo o terreno. Que o Vosso Amor os proteja e os preserve do contágio do mundo.

A inflada atenção às coisas do mundo é uma tentação que, no padre, provavelmente apresenta-se após uma banalização do sagrado, tratado tão cotidianamente; na verdade, é coisa a que todo católico se arrisca, mas o padre em maior grau. A deformação litúrgica deflagrada no reinado de Paulo VI vem inegavelmente catalisando esse processo de banalização que agora parece vir da estrutura: o ordo parece desenhado para corromper nossos padres. Nos seminários da segunda metade do século XX, toda a caça ao integrismo que, em suposição, afastasse as pessoas da Igreja resultou num aburguesamento generalizado das dinâmicas pastorais, onde os correspondentes de Deus são reféns de seus fiéis; vão se invertendo os papéis na censura e na correção entre o corpo docente e discente.

Hoje, a desobediência persiste debaixo da complacência até encontrar respaldo jurídico. Vejam o Papa Francisco em 2021, riscando “do sexo masculino” do cânon 230 do CIC, que ventila sobre o serviço litúrgico (leitores e acólitos), oficializando uma desobediência em vez de corrigir paternalmente o erro de permitir que meninas sirvam nas missas. Uma vez que as ditas “ancilas” existem desde muito antes e não é raro que sejam maioria dos “coroinhas” nas paróquias. O mundo progressista se alegra, juntamente ao demônio, pois está aberta assim a brecha para debater a ordenação de mulheres. Eis o “terreno”, eis o “contágio”.

É necessário rezar muito pelos sacerdotes, pois o mundanismo do padre é aquele que muitas vezes se preocupa com a permanência dos seus fiéis na Igreja. O mundo, o lado de fora do castelo, sempre nos sugere o vício contrário à virtude sobre a qual deve-se cumprir os deveres daquele estado de vida. No caso do padre, o mundo sugere que se ocupe com qualquer coisa que não as almas, que deixe de lado a batina e o breviário, que deixe de lado os ritos e Doutrina da Igreja, deixe de lado sua Mãe Santíssima e seus pobres filhos.

Abençoai seus trabalhos apostólicos com abundantes frutos, que as almas confiadas aos seus cuidados e direção sejam sua alegria na terra e formem no Céu sua gloriosa e imperecível coroa. Amém.

Rezamos por suas obras, por suas palavras e pelo seu interior. Agora, explorados os polos do objeto de nossa devoção, rezamos disfarçadamente por nós mesmos, denominando-nos os frutos. A obrigação do semeador é semear, o crescimento vem de Deus, e o fruto condiciona-se à fertilidade, disponibilidade e dedetização da terra. Mas o bom semeador, como o Bom Pastor, tem como obrigação a caridade, sem a qual sem fazer o máximo que pode, faz-se menos que o mínimo. Apega-se ao resultado, salus animarum.

Oh, Jesus, que dissestes: “Todo aquele que deixar a casa, ou os irmãos ou irmãs, ou o pai ou a mãe, ou os filhos, ou os campos, por causa do meu Nome, receberá o cêntuplo, e possuirá a vida eterna” (Mt. XIX, 29), pela intercessão da Virgem Santíssima, fazei de minha alma uma do cêntuplo reservado a um desses Vossos anjos, nesta vida, e lembrai da Vossa promessa de vida eterna!

Na ordem aos frutos é que nossa vocação, dos pais e dos padres, encontra maior identificação de interesses. Não há pai que não se alegre vendo a estabilização de bons costumes, e a suavidade com que a vida se afasta do pecado através deles. A criação da caridade no coração dos pequenos, a adesão às verdades de Fé, as virtudes teologais assentadas naquela alma para sua apropriação por Nosso Senhor… experimentar estas coisas, para nós todos, é como experimentar a imortalidade. Casa e igreja trabalham no mesmíssimo projeto, sem a vista do qual descarrilham-se de seus propósitos. A diferença é que do sacerdote nada escapa, como explica o padre Jean Viollet:

Acostumado a observar as crianças com olhar imparcial, o sacerdote descobre, facilmente, suas qualidades e defeitos. Os adolescentes confiam-se, muitas vezes, mais tranquilamente a ele que os próprios pais, pois, constatam que o padre, jamais perturba-se ou escandaliza-se com as confidências, por mais ousadas que sejam, e com as fraquezas da natureza, embora muito graves.

 (Pequeno Tratado de Pedagogia. São Paulo: Paulinas, 1967, p. 10)

Mais adiante nesse livro — que, an passant, não é de todo recomendável por que chega um momento em que, com falsa exegese, trata do Gênesis e da ressureição da carne como símbolos, e, portanto, os nega —, diz-se que a influência do padre é superficial comparada a dos pais, naturalmente, em matéria de educação dos filhos. Desta forma, é reconhecido um caráter secundário que faz o sacerdote, mas é também insubstituível a virtude da confidencialidade sacerdotal, que não é mero “guardar segredo”, mas, com efeito de percepção, não se escandalizar. Como é consolador poder agir com franqueza num mundo dado à mentira, depois de ver um homem de estudo e oração, grave e casto, fantasiado de morte, como diria Corção, falar com tranquilidade depois de eu ter lhe apresentado o que, para mim, era o maior problema do universo! Devemos rezar para que adquiram essa virtude, por seus frutos e pelos nossos!

Oremos.

Oh, Jesus, sacerdote eterno, guardai os vossos sacerdotes no vosso Sagrado Coração, para que nada de mal lhes possa acontecer.
Conservai imaculadas as suas mãos ungidas que tocam todos os dias vosso Sacratíssimo Corpo.
Conservai imaculados os seus lábios diariamente tingidos com o vosso Preciosíssimo Sangue.
Conservai os corações, que selastes com o sublime sacramento da Ordem, puros e livres de todo o terreno.
Que o Vosso Amor os proteja e os preserve do contágio do mundo.
Abençoai seus trabalhos apostólicos com abundantes frutos, que as almas confiadas aos seus cuidados e direção sejam sua alegria na terra e formem no Céu sua gloriosa e imperecível coroa.
Amém.

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